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REDES SOLIDÁRIAS: AUTOGESTÃO E EXTENSÃO DA DEMOCRACIA
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RECOMENDAÇÕES DA ECONOMIA SOLIDÁRIA À AGENDA DE DESENVOLVIMENTO PÓS 2015 DA ONU

2014-06-24 15:46:28

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Fonte: Adital (www.adital.com.br/)

O secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (www.fbes.org.br), Daniel Tygel, discorre sobre a importância da articulação em redes, sobre o papel do consumidor na Economia Solidária e sobre os desafios que restam para a efetiva implementação dessa outra economia. Confira abaixo.

Adital - Qual a importância da organização de empreendimentos e entidades solidárias em redes?

Daniel - Este é um tema fundamental no movimento de Economia Solidária hoje: a afirmação mais contundente que temos é da importância da articulação em redes como estratégia para o avanço da Economia Solidária no país. Isso envolve o reconhecer-se, o fazer a construção de iniciativas de logística solidária, de comercialização (lojas, centrais de comercialização e estoque, etc), de consumo, etc. E estas articulações em rede perpassam a organização dos empreendimentos solidários de produção, de comercialização, de assessoria e apoio (Bases de Serviços) e de consumidores, tanto setorialmente como em cadeias entre si.

A estratégia de redes aponta para a modificação do próprio mercado, do próprio sistema econômico, para contemplar mecanismos de regulação pautados no bem-viver, nas bases comunitárias, nos interesses do bem comum, e não de um ou outro grande empresário ou político: enfim, é a estratégia que estamos desenvolvendo para a mudança do foco central da economia, não mais para o lucro e sim para o bem-viver e da realização pessoal e coletiva, no sentido mais profundo da palavra. Isso é solidariedade. Isso é autogestão e extensão da democracia para o âmbito econômico de organização da sociedade.

Adital - Qual o papel que o consumidor responsável desempenha dentro da Economia Solidária?

Daniel - O papel do/a consumidor/a responsável é muito importante, mas tem sido pouco explorado até então. É difícil ainda conceber a pessoa, instituição ou grupo que consome como um elemento ativo da construção da Economia Solidária. Para isso, faz-se necessário trabalhar em duas dimensões. A primeira é o processo de conscientização a respeito do consumo: isso é fundamental, pois é necessário repensar as demandas de consumo, o fetiche do consumismo como forma de buscar a realidade, e deve ser uma dimensão mais trabalhada. Precisamos cultivar o "olhar curioso", que pergunta "o que está por trás do produto que estou consumindo? Que processo trouxe-o até aqui"? Não falo aqui do discurso vazio do politicamente correto, que é moralista e imposto, mas sim do exercício de sincera curiosidade frente ao mundo e de reconhecimento da lei de que toda ação implica em uma reação, ou seja, de que o ato de consumo não é apenas um ato individual de escolha, mas um investimento numa forma de produzir, que pode ser predatória e geradora de exclusão ou construtiva de uma outra sociedade!

A segunda dimensão que deve ser trabalhada, para além da conscientização e educação (que aliás precisaria ser incorporada nas escolas, para nos preparar para aguentar as propagandas que nos engolem diariamente), é da importância da organização de consumidores/as como empreendimentos solidários, tanto individualmente como em espaços institucionais (de convívio, de trabalho, de estudo). Esta dimensão ativa de organização de consumidores é um desafio fundamental dentro do movimento, pois permite o ganho de escala e, com o uso desta força acumulada de compra, da modificação de leis de mercado incluindo os critérios do comércio justo e solidário. Há algumas iniciativas espetaculares no país, mas ainda são poucas perto do desafio que temos pela frente. O/a consumidor/a responsável é, portanto, um importante ator para o fortalecimento da economia solidária.

Adital - Quais as perspectivas para o próximo ano? Que desafios ainda restam a ser ultrapassados?

Daniel - Agora em novembro ocorrerá a VIII Reunião da Coordenação Nacional do FBES (composta por mais de 90 representantes dos 27 estados do país) que terá como principal objetivo a construção do plano de ação trienal do FBES a partir dos resultados da IV Plenária Nacional de Economia Solidária deste ano. É arriscado, portanto, adiantar quais serão as prioridades do ano que vem. Acredito, pessoalmente, que o ano que vem será crucial para o futuro da economia solidária, e portanto o FBES terá quatro grandes desafios, para preparar o campo para 2010, quando ocorre a Campanha da Fraternidade cujo tema é "Economia e Vida" (com centralidade na economia solidária) e em que deve ocorrer a II Conferência Nacional de Economia Solidária (ou no final de 2009):

• Consolidar (e incidir no Conselho Nacional de ES) a proposição do PRONADES (Programa Nacional de Desenvolvimento da Economia Solidária, incluindo fundo específico para o fomento e apoio a empreendimentos solidários utilizando como ferramentas de repasse os instrumentos de finanças solidárias - bancos comunitários, fundos rotativos e cooperativas de crédito) e do Estatuto da Economia Solidária (ou Lei Orgânica, que terá como principal objetivo o reconhecimento da Economia Solidária pela legislação brasileira). Com relação ao Estatuto, há a proposta de que torne-se um carro-chefe para um processo de mobilização durante a campanha da fraternidade 2010 para recolhimento de 1 milhão de assinaturas e ser submetido como projeto de lei de iniciativa popular;

• Priorizar o fortalecimento dos Fóruns Estaduais e Microrregionais de Economia Solidária como espaços de construção de sinergias locais rumo a um outro desenvolvimento;

• Apoiar a criação e consolidação de algumas redes principais (localmente e nacionalmente), quais sejam: a) a rede de formadores em economia solidária; b) rede de iniciativas de comercialização e logística solidária (lojas, centrais, bases de serviço de apoios a comercialização); c) rede de finanças solidárias (articulando as redes de cooperativas, de fundos rotativos, e de bancos comunitários); d) rede de iniciativas solidárias de consumo responsável; e) redes e cadeias solidárias no campo da produção;

• Concretizar algumas alianças estratégicas com movimentos sociais, especialmente nos campos da agroecologia, da soberania alimentar, do comércio justo e solidário, das mulheres, dos catadores e da reforma urbana, entre outros.

As matérias sobre Economia Solidária da Adital são produzidas com o apoio do Banco do Nordeste do Brasil.

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